segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Medianeiras, sensível retrato das relações amorosas contemporâneas

por Maurício Mellone

Medianeiras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual é um dos três ótimos lançamentos vindos da Argentina que estrearam na cidade na última semana — os outros dois são Um Conto Chinês com Ricardo Darin e A Viagem de Lucia do diretor Stefano Pasetto. Em Medianeiras (as paredes cegas, sem janelas dos edifícios) a história é um retrato fiel das relações amorosas dos nossos dias: com os mecanismos tecnológicos de comunicação à disposição de todos, cada vez mais as pessoas vivem isoladas e trancafiadas em suas residências, por mais paradoxal que isso possa parecer! Solidão, depressão, síndrome do pânico são algumas das consequências desse isolamento, o que distancia ainda mais as pessoas, dificultando a formação de novas relações amorosas.

Martin (Javier Drolas) é um aficionado pela internet e trabalha em seu apartamento construindo sites para os clientes. Sua única companhia é o cachorrinho deixado pela ex-namorada, que viajou aos EUA e de lá avisou que não voltaria mais. Além do ganha-pão, o computador é a vida de Martin: ele faz compras, lê, joga vídeo game e conversa com futuras pretendentes em sala de bate-papos. Só deixa o pequeno apartamento para ir ao psicólogo (sofre de síndrome de pânico) e para passear com o cão. Mesmo vivendo no mesmo bairro e na mesma rua de Martin, Mariana (Pilar López de Ayala),  uma arquiteta que decora vitrines e tem pavor de elevador, não se encontra com o vizinho. Ela também deixou uma relação de quatro anos e deseja refazer sua vida emocional. Assim como Martin, ela navega na internet e ambos já trocaram impressões nas salas de bate-papo, mas não se conhecem. O terceiro personagem da trama é Buenos Aires: o diretor Gustavo Taretto (autor do roteiro e também vencedor do kikito de direção em Gramado) traça uma relação entre a arquitetura da capital argentina e o modo de vida de seus moradores. As imagens da cidade contribuem para a narrativa: o crescimento desordenado, as diferenças de estilos arquitetônicos e o caos urbano são revelados pela câmera, ao mesmo tempo em que os moradores vivem no isolamento de seus mundos claustrofóbicos.

E ao invés de Buenos Aires, o filme poderia retratar muito bem São Paulo, Cidade do México ou qualquer outra metrópole mundial. O isolamento, os desencontros, a falta de afeto e vínculo amoroso são detectáveis em qualquer grande cidade, são características dos nossos tempos. Felizmente na trama de Taretto, apesar de todos esses obstáculos da vida moderna, Martin e Mariana conseguem sair do contato virtual e têm a chance do encontro na vida real.

Além da identificação total com a trama, o que me cativou em Medianeiras foi a narrativa ágil, o humor das circunstâncias e a delicadeza ao tratar de um tema tão dolorido como a solidão. As referências ao mestre Woody Allen são totais, tanto que há uma cena em que os dois personagens (cada um em seu apartamento) choram na frente da TV ao assistirem a um filme do diretor norte-americano.

Fonte: Favo do Mellone

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